O ser humano é constituído de mais do que apenas matéria física ocupando lugar no espaço, é também, a soma de suas ações, paixões, pensamentos e conhecimento. Sendo compreendido aqui conhecimento como tudo aquilo que o indivíduo vivenciou nas suas relações com o meio e com outras pessoas, mas também, como o que ele faz com este aprendizado e como o interioriza e transforma em ações e pensamentos.
O importante nem é tanto o que aprendemos e conhecemos, mas o que fazemos deste conhecimento e como se dá esta conversa entre o que já interiorizamos com as experiências de vida que se apresentam e que podem ser encaradas de modos diferentes dependendo do que fizemos com o que aprendemos.
Conhecer o nosso conhecimento e saber o que sabemos é tão importante quanto saber e conhecer, pois a diferença entre um sábio e um tolo é apenas o fato de que o tolo pensa que sabe e o sábio sabe que sabe.
Acredito também que somos fruto do meio, de nossa carga genética (determinismo biológico) e de algo mais, que os orientais chamam de dharma, e que portanto temos nosso conhecimento construído no decorrer de nossa vida, mas que dependendo de fatores intrínsecos a cada um a relação que criamos com este conhecimento e o uso que damos a ele é único de cada um.
Trago aqui uma citação de Pierre Levy:
“Cada vez que um ser humano organiza ou reorganiza sua relação consigo mesmo, com seus semelhantes, com as coisas, com os signos, com o cosmo, ele se envolve em uma atividade de conhecimento, de aprendizado”, sendo assim ele também diz que:“Espaço do Saber não existe” sendo virtual e portanto não adquirindo sua própria autonomia.
Tendo entrado no “Espaço Virtual do Saber” podemos divagar sobre a necessidade que temos de “Aprender a aprender”, uma vez que nosso saber tem adquirido, na sociedade atual, a Característica da Especialização, tornando-nos o que Edgar Morin chamou de “aquele que sabe tudo… sobre nada”.
Concordo que estamos carentes de o que Morin chamou de Transdiciplinaridade, precisamos voltar a visão do todo, sistêmica, o que alguns chamam de Visão Holística, pois o todo é maior que a soma das partes e sendo assim trás consigo um conhecimento que não se pode ter ao abordar o aprendizado por especialidades.
O Aprendizado pela Transdiciplinaridade nos torna pessoas mais Criativas pois liberta nossa visão das “amarras do foco” e nos deixa enxergar as relações existentes entre as partes. A separação do aprendizado em diferentes especializações privilegia a inteligência em detrimento da criatividade uma vez que está baseada na educação formal e no método científico, mas tolhe nosso saber global e nossa compreensão das relações entre coisas que parecem totalmente separadas.
O Saber Especialista nos trouxe até aqui, o Método Científico foi vital para o crescimento da ciência, todavia hoje, muitos cientistas chegaram a Paradoxos científicos em suas Áreas de Saber que somente conseguem explicações para os Eventos que Experimentam e/ou Descobrem, levando em consideração que existem correlações com outras Áreas de Saber e que muitas vezes o Caos é a Explicação mais plausível.
Enxergando o Todo e construindo nosso Saber pela Transdiciplinaridade conseguimos enxergar que o Coletivo e o Caos também são fontes de Conhecimento e Aprendizado.
Citando Levy, eu poderia dizer:
“Trabalhar, viver, conversar fraternalmente com outros seres, cruzar um pouco por sua história, isto significa, entre outras coisas, construir uma bagagem de referências e associações comuns, uma rede hipertextual unificada, um contexto compartilhado, capaz de diminuir os riscos de incompreensão
Isto nos leva a Visão Holística que citei antes e um conceito de inter-relacionamento semelhante a uma Teia que Capra chamou de “Rede”. Vivemos em um ambiente que se constrói a partir de nossas relações, pensamentos, consciência, atos, que se mantêm apesar de nossa existência e que vai além de nossa raça humana.
Vivemos e agimos em um ecossistema que tem por definição manter seu equilíbrio e portanto nossas ações dentro deste ambiente tem um reflexo direto sobre nós uma vez que este equilíbrio for afetado. Esta Rede Inter-relacionada funciona como um Organismo que busca manter-se estável, pois está totalmente conectado, todavia pode, a semelhança de um organismo, afetar de maneira destrutiva uma parte de seu Organismo que não esteja em equilíbrio com as demais.
Este ecossistema não é bom, nem mau, é um amálgama entre o Masculino e o Feminino, entre o Yin e o Yang, entre luz e escuridão e que traz consigo uma grande Rede que interliga a toda sua diversidade através de elos e anéis metafísicos, formando um grande organismo Vivo que é maior do que a soma das partes, pois trás consigo esta Consciência Holística que se assemelha ao que Freud chamou de Inconsciente Coletivo.
Capra
O reflexo desta mudança de paradigmas, da mudança de ciclo, impacta diretamente nas relações humanas e no modo como o homem se enxerga, fazendo parte de um conjunto maior que é a Sociedade e o Ecossistema no qual vive.
A Sociedade atual cria novas formas de relações entre os indivíduos e nos trás um novo conjunto de ferramentas que nos faz enxergar o ambiente no qual estamos inseridos de uma maneira diferente.
Vivemos a era da Informação e sob esta ótica o Conhecimento, as Relações Humanas e o Ambiente de Convívio mudou para uma “Nova Rede”.
A sociedade encontrou no Mundo Virtual, Digimundo, uma extensão de si mesma que tem novas regras, nova moral, e que se constrói uma nova ética. A moral de nosso “Mundo Real” vale no digimundo, pois ali os indivíduos constroem uma extensão de si mesmos que nada mais é do que eles gostariam de ser e projetam uma imagem que fazem de si e que não a mesma do Mundo Real.
Vivemos a Era do “Second Life” onde homens são mulheres, pobres são ricos, famosos são anônimos e dentro deste universo uma nova Rede é construída e uma Sociedade é formada com suas relações “virtuais”, mas que a exemplo da nossa, tendem a chegar a um equilíbrio.
Apesar de Vivermos uma Rede diferente no digimundo acredito que ali continuam valendo os Imperativos Categóricos de Kant que servem como referencia para o modo de agir e portanto para fazer ética.
Esta nova era traz desafios interessantes para nossa Moral e nos faz criar e discutir o comportamento e pensamento humano e portanto nos faz refletir criar uma nova Ética. Estamos sendo desafiados pela era da Informação a criar uma nova sociedade onde cada indivíduo pode viver sob duas Morais, duas Sociedades, Duas Vidas …
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